A neve é fria, mas não mais gelada que seu coração... Dias álgidos são mais suportáveis que o vento glacial que lhe vem d’alma.
Nas montanhas mais frias, onde a vida não era minimamente cogitada e nem as almas mais penadas ousavam vagar, vivia uma criatura, que subsistia uma existência melancólica e miserável. O passatempo do vivente consistia em afogar-se em devaneios nos quais a vida não era tão só e a realidade tão angustiante.
Todos os dias, antes de dormir, rogava a Deus que lhe acudisse e livrasse-a de tamanhos sofrimento e desespero. Um dia, Deus, comovido com a pequenina Barata das Neves, moveu-a para um vale próximo a uma civilização humana.
Ó como a baratinha ficou feliz com a situação. Olhava em direção ao horizonte e perdia a vida de vista! Prontamente decidiu fazer-se conhecer seus mais novos vizinhos.... Declarado erro suicida que a besta cometeu: os habitantes da comunidade contígua não eram nada amigáveis.... Receberam a pobre à base de chineladas e gritos de horror:
– ¡Necesito ayuda! ¡Dios mío! ¡Una Cucaracha!
– ¡¡¡Ah!!!
– Jesus fucking Christ, a cockroach!!! Ah!!!
– Salvem-se quem puder!!!
...
Cada grito escoriava uma profunda ferida no desgraçado coração da baratinha. O que fizera a miserável para que fosse alvo de tamanho desgosto e repulsa?
Com o tempo, o anseio lhe foi amargurando mais e mais. Até que depois de certo prazo, as escoriações haviam cicatrizado e petrificado seu não mais tolo coração.
Foi assim, então, que a tão temida Cucaracha de Las Nieves (nombre científico Pepersia japonica) nasceu. Fruto do desdém gratuito e incompreensão alheia.
Dizem os que têm ouvidos atentos que é possível ouvir os plangores e lamentos da criatura nas noites mais quietas e frias do ano. Clamam que a razão do pranto é desconhecida. Será que são tão cínicos assim? Ou será que a culpa tanto assim os consome?